Parece clichê falar da Mulher no mês de março, são tantas comemorações, empresas fazem ações, a celebração e a discussão do tema. Desde pensar se vamos ou não dar flores a qual o real papel desta data nos dias de hoje.
Para divagar sobre o tema precisamos entender como esta data surgiu e porque os movimentos feministas hoje trazem a temática em torno das ações efetivas para garantias dos direitos das mulheres.
O Dia Internacional da Mulher tem como matriz de surgimento diversos fatos históricos que são marcos da luta das mulheres que reivindicavam: igualdade de gênero, direitos trabalhistas, sufragistas e mais justiça social para todos e todas. Foram diversas mobilizações que culminaram na escolha da data.
Movimentos originados nos Estados Unidos e Europa no final do século XIX e início do século XX: mulheres operárias de fábrica, que tinham condições laborais extremamente precárias começaram a se organizar em grupos para fazer protestos por melhorias. Essas manifestações foram sufocadas com uso de muita violência, em uma delas, em 8 de março de 1857, cento e trinta tecelãs em Nova Iorque ao se manifestarem foram trancadas em uma fábrica onde foi ateado fogo e estas todas morreram carbonizadas. No ano de 1910, em uma conferência de mulheres, a ativista Clara Zetkin propôs uma data para celebrar as lutas e promover a igualdade de direitos para as mulheres, uma proposta que foi aprovada mas ainda sem determinar qual seria a data. Em 1911, também em março, outro incêndio em uma fábrica matou 146 pessoas, a maioria mulheres, novamente na cidade de Nova Iorque. Já em 1917, no dia 8 de março na Rússia, mulheres se organizaram pedindo por “pão e paz” em plena Primeira Guerra Mundial. Mas foi somente em 1975 que a ONU (Organização das Nações Unidas) oficializou o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher, transformando a data em um dia de luta pelos direitos das Mulheres no Mundo.
Porém, o mundo em que vivemos, com todo histórico ainda de desigualdades, traz a data para o contexto de presentear as mulheres com flores, chocolates e por vezes apagando o real simbolismo da data. Hoje em alguns espaços, como empresas, corporações, instituições públicas e/ou privadas, a data se tornou um momento isolado de premiação ou palestras motivacionais, porém a prática diária do local não valoriza o respeito e as próprias mulheres que trabalham ou frequentam este espaço. E é esta isolada forma de abordar o 8 de março que muitas vezes recebe críticas dos movimentos de mulheres que buscam uma sociedade de direitos e deveres iguais para homens e mulheres.
Quando a rosa vem acompanhada de respeito, igualdade salarial, fortalecimento das mulheres em todos os espaços, enfrentamento aos diversos tipos de violências de gênero, não há o que se discutir quanto ao momento de reflexão. Associadas muitas vezes como algo frágil, as mulheres são diversas e únicas, como todos os seres humanos.
As mulheres ainda são as que mais sofrem violências e trazer neste mês a temática para o centro das atenções funciona também para fortalecer a busca por esses direitos. Constrói pontes para que mais mulheres tenham acesso a informação, conheçam a história, saiam da situação de violência, acessem políticas para alcance da cidadania e autonomia econômica, oportuniza mais o empreendedorismo feminino. É um momento de ampliar as discussões, rememorar a história e dar novos passos para a construção diária de uma sociedade que se estruture para que as mulheres possam ocupar mais espaços, para que tenham chance de viver em liberdade.
Estamos falando sobre uma caminhada que ainda está distante do destino final, uma sociedade onde as mulheres não tenham mais medo de sair de casa sem ter seus corpos violados, de que haja igualdade de oportunidades e direitos. Estima-se pelo Fórum Mundial Econômico de Igualdade de Gênero de 2023 que precisaríamos de 131 anos para alcançar essa igualdade. Porém, essa estimativa pode ser mera utopia se trouxermos à tona a célebre frase de Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que se manter vigilante por toda sua vida”.
Com essa reflexão seguimos atentas, celebrando os passos adiante e reforçando a ideia de que quanto mais informação e educação tivermos mais conseguiremos avançar na transformação da nossa sociedade. Que as mulheres se unam sempre no propósito de diminuir as desigualdades e que mais homens estejam caminhando ao nosso lado nesta busca. Que não seja mais necessário um dia internacional para comemorarmos por estarmos vivas, pois estaremos todas vivas e livres todos os dias.
Por Luana Marabuco
Advogada; Pós-Graduada em Direito Público e Gestão de Pessoas; e Secretária da Mulher de Caruaru-PE.